Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

Uma maior visibilidade para a Harmonia Mundi

 

Há muito, demasiado tempo, que os catálogos representados pela famosa distribuidora francesa Harmonia Mundi eram pessimamente trabalhados em Portugal, raramente se conhecendo o que ia saindo  (se é que saía), tão pouco competente era quem desses catálogos se ocupava entre nós.
Agora, felizmente, parece que tudo pode mudar e só essa boa notícia bastaria para que se justificasse esta nota sobre cinco-discos-cinco que, a título de exemplo, mão gentil me fez chegar muito recentemente.
___________________________________________
 
Dizer que o catálogo da editora suíça HatHut   (e suas várias séries)  é um dos mais importantes no campo do jazz, da música improvisada e da nova música contemporânea é reconhecer uma evidência, tendo em conta o já riquíssimo acervo que pode aqui ser consultado. Dedicando as suas atenções às novas obras de jovens músicos em revelação, mas também aos mais consagrados veteranos, a HatOLOGY vem demonstrando, ano após ano, a indiscutível importância das editoras independentes europeias na própria divulgação do jazz norte-americano.
 
Começando por Anthony Braxton, não é recente esta sua obra discográfica publicada pela HatOLOGY, antes representa  (segundo julgo, porque esta é a primeira vez que a escuto)  mais uma reedição de um célebre concerto realizado em 1979 com o seu quarteto no Festival de Jazz de Willisau (Suíça). Um quarteto constituído, além do mestre  (em vários instrumentos de palheta),  por Ray Anderson  (trombone, trombone alto e outros «pequenos instrumentos»), John Lindberg (contrabaixo)  e Thurman Barker (percussão, xilofone e gongs), formação que durou pouco tempo em comparação com a que Braxton organizou com Marilyn Crispell, Mark Dresser e Gerry Hemingway.
 
O repertório é representativo desta fase da carreira do multi-instrumentista / compositor e, sendo embora apresentado sob a forma de duas obras extensas, ele é constituído por peças de variada duração e grande abstracção conceptual, conjugadas numa organização composicional que, bem ao gosto de Braxton, vai evoluindo  (às vezes justapondo-se)  ao sabor das suas indicações, mas também da democrática tomada de iniciativas dos seus pares. Um disco importante para se avaliar bem o (sempre intrigante)  peso da improvisação no interior da composição. E vice-versa!
 
Ao contrário do disco de Braxton, Afternoon in Paris é uma primeira edição da HatOLOGY e dá-nos a conhecer um saxofonista bem singular, com uma carreira ainda mais insólita. Ele é Anthony Ortega, nascido em Los Angeles, de origem índia-mexicana, próximo do som mais «duro» de outros conhecidos saxofonistas da West Coast como Art Pepper ou Herb Geller e cujo percurso  (se bem que correndo em paralelo ao dos maiores músicos do seu tempo)  se esfumou a certa altura, porque Ortega mergulhou no trabalho de estúdio, praticamente nada se sabendo dele na cena do jazz, excluindo porventura dois discos célebres –  New Dance e Permutations  – gravados em meados dos anos de 1960. 
 
Só a leitura das interessantíssimas notas de Art Lange para a capa deste disco quase justificaria a sua compra. Mas, em termos musicais, a surpresa do encontro com esta voz instrumental de sonoridade ainda tão «jovem»  (considerando que grande parte das peças foram gravadas quando Ortega tinha 74 e 77 anos de idade!)  e dando corpo a improvisações altamente heterodoxas, não é menos desafiante.
 
Com um repertório quase inteiramente constituído por grandes standards do jazz – por onde passam peças sujeitas a um tratamento exigente como Ask Me Now, Blue Monk, Now’s The Time, Afternoon in Paris ou I’ ll Remember April  – o lado insólito deste disco está bem documentado no facto de algumas peças terem sido gravadas em solo absoluto  (frente a uma câmara de vídeo!)  e outras em estúdio, na companhia de Kash Killion  (contrabaixo, violoncelo), ainda com um outro bónus: uma gravação inédita de Ornithology, datada já de 1966  (quando Ortega tinha pouco mais de 30 anos!)  em duo com o contrabaixista Chuck Domanico.
 
Fechando o capítulo HatOLOGY, uma outra reedição deste ano vem retomar o material gravado (também no Festival de Jazz de Willisau de 1979)  pelo saxofonista Oliver Lake, um dos mais conhecidos membros do World Saxophone Quartet, aqui com o seu trio formado ainda por Michael Gregory Jackson  (guitarra eléctrica)  e Pheeroan akLaff  (bateria).
 
Constituindo, em grande parte, uma remissão à matriz do free e marcado a espaços pelas inflexões dos blues, o material temático que percorre este disco representa uma afirmação clara da tradição afro-americana, isto num catálogo por vezes mais próximo da improvisação livre de extracção europeia. Mas peças demasiado longas como aquela que dá o título ao disco –  Zaki  –, manchada pelo pecado de querer falar muito para pouco acabar por dizer, não contribuem para tornar absolutamente indispensável a audição deste álbum.
 
Por último, virando-nos decididamente para a Europa, outros dois CDs distribuídos pela Harmonia Mundi e chegados a Portugal pertencem agora a dois catálogos diferentes: o histórico Le Chant du Monde e o  (para mim)  desconhecido O + Music.
 
Representando o primeiro está o álbum Électrique, pela Orquestra Nacional de Jazz (França) sob a direcção de Franck Tortiller. Como o título indica, Tortiller –  ele próprio um vibrafonista e director da ONJ para um mandato de três anos  (começado em 2005), como é da tradição rotativa da orquestra / cooperativa em termos de direcção  – privilegiou a electrónica nos arranjos que escreveu para a orquestra  (mais precisamente para a formação média de decateto)  mas deu-lhes um cunho de exigência que ultrapassa, em muito, a escrita fácil que abunda neste campo.
 
Fortemente marcado pelo beat binário e pela evocação do jazz-fusão de meados de 1970, bem como de figuras / grupos-chave desse período –  como Miles Davis, os Weather Report, os Headhunters ou a Mahavishnu Orchestra  –, este álbum é com duas únicas excepções  (Sometimes it Snows in April, de Prince, e o remix final de Claude Gomez)  preenchido com obras originais de Franck Tortiller e segue-se a uma primeira experiência na qual o vibrafonista-arranjador já adoptara o rock de Led Zeppelin, estando especialmente indicado para os apreciadores desta corrente.  
 
Já o jazz também familiar mas instrumentalmente mais clássico de Changing Faces é a pedra de toque deste álbum gravado pelo cantor belga David Linx com a brilhantíssima Orquestra de Jazz de Bruxelas, uma das mais reputadas big bands europeias. Pouco conhecido entre nós –  embora tenha participado no Guimarães Jazz de 1998  – Linx é um cantor talentoso, de vocalização «instrumental» e scat ágil, usando um timbre metálico e uma quase-ausência de vibrato que o aproximam de Mark Murphy e, por tabela, de Kurt Elling.
 
São vários os arranjadores convocados pela OJB  (entre os quais os portugueses Carlos Azevedo e Mário Laginha, para obras de sua autoria)  e três as vozes também convidadas por David Linx para lhe fazerem companhia em alguns duetos, como Natalie Dessay, Ivan Lins e Maria João, num repertório em grande parte saído da pena de Linx. Entretanto, um aspecto negativo que aos meus ouvidos ressalta  (e é mal resolvido)  no trabalho de mistura e pós-produção, é por vezes um certo artificialismo resultante do facto de a gravação das vozes não ter sido certamente realizada ao mesmo tempo da orquestra.
 

A título de curiosidade, o vídeo-clip que podem ver abaixo, é o  making of  de Changing Faces, no qual se pode ouvir a introdução (escrita por Carlos Azevedo) para The Land of Joy, seguida do próprio original de David Linx-Diederick Wissels, com arranjo do mesmo Carlos Azevedo.

                          

 


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:59
Link para este post

Área pessoal

Pesquisar neste blog

 

Outubro 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Para memória futura

Bernardo Sassetti (1970 ...

E no entanto ele move-se....

Ao vivo... Adam Rogers & ...

Em directo, do Village Va...

11 de Fevereiro de 2012

Depois da reabertura, a r...

Vídeos recentes (made in ...

A redonda celebração do G...

A redonda celebração do G...

Visionamentos...

Primeira audição

Consta por aí...

Jazz em Newport (2011)

Os 20 anos do Jazz no Par...

Serralves: já lá vão dua...

Intervalo (11)

Intervalo (10)

Intervalo (09)

Intervalo (08)

Intervalo (07)

Intervalo (06)

Intervalo (05)

Intervalo (04)

Intervalo (03)

Intervalo (02)

Intervalo (01)

Quem não se sente...

Sempre!

"Um Toque de Jazz" em Fev...

Arquivos

Outubro 2014

Maio 2012

Abril 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Tags

achados no baú

achados no baú (14)

achados no baú (15)

achados no baú (16)

achados no baú (17)

achados no baú (18)

achados no baú (19)

achados no baú (20)

achados no baú (21)

achados no baú (22)

achados no baú (23)

achados no baú (24)

achados no baú (25)

animação

ante-estreias

ao vivo

àpartes

arquivos

artigos de fundo

balanços

blogs

boas festas

bónus de verão

cinema

clubes

colectâneas

concertos

concertos internacionais

concertos portugueses

cooncertos

dedicatórias

descobertas

desenhos

directo

discos

discos em destaque

discos estrangeiros

discos nacionais

distribuidoras

divulgação

documentos históricos

editoras

editoriais

editorial

efemérides

em directo

ensino

entrevistas

escolas

escutas

férias

festivais

fotografia

gravações ao vivo

grupos estrangeiros

história

história afro-americana

homenagens

hot clube

humor

internet

intervalos

jazz

jazz ao vivo

jazz no cinema

leituras

links

live stream

livros

mp3

música sinfónica

músicos

músicos estrangeiros

músicos internacionais

músicos portugueses

músicos residentes

músios estrangeiros

natal

novos discos

obras-primas

pavões

pessoas

podcasts

portugal

prémios

primeira audição

produtores

produtores estrangeiros

r.i.p.

rádio

recursos

reedições

televisão

um bónus de verão

um toque de jazz

video-clip

vídeos

village vanguard

visionamentos

visitas

todas as tags

Links

Subscrever feeds